Das redes sociais para a sala de aula: como professores enfrentam as novas febres virais entre estudantes

O que nasce nas redes sociais rapidamente chega às salas de aula — e, muitas vezes, muda completamente a dinâmica escolar. A mais recente febre entre crianças e adolescentes é o chamado “Six Seven”, expressão viralizada no TikTok que provoca reações imediatas sempre que os números 6 e 7 aparecem em qualquer contexto.

Embora a brincadeira tenha começado ligada às aulas de inglês, o fenômeno já ultrapassou a disciplina e passou a fazer parte da rotina em diferentes ambientes escolares. Docentes do Colégio Salesiano “Dom Luiz Lasagna” relatam risadas, memes e novas expressões surgindo diariamente entre os alunos do Ensino Fundamental II e Ensino Médio.

A professora de Gramática e Redação, Cláudia Cristiane Oliveira, conta que decidiu levar o assunto para debate após assistir a uma reportagem sobre o tema. Segundo ela, as reações variam bastante conforme a faixa etária. “Na primeira série do Ensino Médio, eles acham ‘vergonha alheia total’ e dizem que isso pertence às crianças menores. Já na segunda série eles usam bastante, principalmente em tom de brincadeira”, explicou.

Foi também durante essas conversas que a docente percebeu outra expressão em alta entre os estudantes: “Farmei Aura”. “Eu aproveitei para transformar isso em ferramenta pedagógica, gerar debate e até brincar com eles em sala. Às vezes eu digo: ‘E aí, farmei aura ou perdi aura?’”, contou.

Cláudia afirma que a velocidade com que a cultura digital influencia adolescentes e crianças impressiona. As expressões, os costumes e até os comportamentos mudam muito rapidamente. Isso dialoga diretamente com o conceito de modernidade líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman. “Como professora, procuro sempre estar antenada ao que acontece para conversar com eles e gerar reflexão quando necessário”, afirmou.

PERTENCIMENTO

O professor de Ciências, João Paulo Galdino, acredita que essas tendências também desafiam os docentes a adaptarem metodologias e formas de aproximação com os estudantes. “É necessário compreender o nosso público e usar essas trends como estratégia de aproximação e pertencimento. Todas as gerações tiveram suas próprias gírias”, comentou.

Para ele, o mais importante é equilibrar o uso das telas com experiências significativas em sala de aula. O segredo, segundo o docente, é orientar os alunos sobre o uso consciente das redes sociais sem deixar que o mundo digital substitua as relações interpessoais.

Já o professor de Matemática, Fabrício Leonardi, decidiu incorporar a febre do “Six Seven” diretamente nas atividades da disciplina. “Eu proponho desafios para que os alunos criem contas cujo resultado seja 67. Hoje mesmo fiz algumas de propósito só para ver a reação deles”, contou.

Segundo o docente, utilizar as tendências de forma criativa ajuda a manter os estudantes engajados sem transformar a situação em conflito. “É algo que está acontecendo no mundo todo. Então por que não trazer isso para o nosso favor dentro da sala de aula?”, questionou.

Por fim, a coordenadora pedagógica do Colégio Salesiano “Dom Luiz Lasagna”, Liliana Aparecida Corá, disse que a escola acompanha atentamente essas mudanças de comportamento para fortalecer o diálogo com os estudantes e apoiar os professores no ambiente escolar. “Essas tendências mostram o quanto os jovens estão conectados ao universo digital. O papel da escola é orientar, acolher e transformar essas situações em oportunidades de aprendizagem, sempre com equilíbrio, respeito e diálogo”, frisou.

ECA DIGITAL

Segundo Liliana, o colégio também está atento às novas normativas relacionadas ao chamado ECA Digital, realizando ações de conscientização sobre cidadania e comportamento no ambiente virtual. “Nós temos um cuidado muito especial com as questões ligadas ao ECA Digital e à conscientização dos alunos sobre o uso responsável das redes sociais. Inclusive, faremos encontros e conversas com os estudantes para reforçar essa orientação”, concluiu.